AS AUDIÊNCIAS DA REDE MANCHETE – PARTE 2

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Em 1990,  o sucesso de Pantanal abalou o horário nobre da Rede Globo. A Manchete chegou a assumir o segundo posto de emissora mais assistida do Brasil, e houve até mesmo a intenção de contratar Fausto Silva para reforçar sua grade dos domingos, visando ampliar ainda mais seu sucesso.

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OLOCO, BLOCH!

Surfando na onda da pioneira trama de Benedito Ruy Barbosa, a exibição de Ana Raio e Zé Trovão em 1991 ainda gerava bons números de audiência. Mas esse momento da Manchete se esvaiu conforme a estagnação econômica do país foi aumentando.

A crise financeira que assolou a emissora com a produção da novela posterior, Amazônia, deu um duro golpe na emissora da Rua do Russel, e ela acabou entrando em um negócio com o grupo IBF em 1992. Amazônia foi um fracasso retumbante em audiência, nunca conseguindo superar a marca de mais de 5% de share, como aconteceu em dezembro de 1991. Para se ter uma dimensão do fracasso, podemos pegar o exemplo de outras produções que a Manchete exibia no mesmo período em 1992, como a novela americana Paixão e Ódio, que conseguia 2% na audiência, o mesmo número de Amazônia. Ou então o atrativo cyberpunk de Max Headroom, que chegou a espetaculares 4% nas exibições dominicais entre janeiro e maio de 1992.

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DEU RUIM
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DEU BOM

Com o fracasso de Amazônia, somada à aquisição da Manchete pelo grupo IBF, o horário nobre das novelas e, por consequência, sua grande audiência, foi para o espaço. Nenhuma novela foi produzida neste período. Para preencher essa lacuna, foi colocada no ar pela terceira vez a novela Dona Beija, um grande sucesso da primeira fase da Manchete, mas que rendeu 3% em 1992.

O maior sucesso da emissora neste período era o programa independente Documento Especial, com audiência na casa dos 9% – menor que os 19% que chegou a alcançar na época da exibição de Pantanal em 1990. Mas, como desgraça pouca é bobagem, a equipe do Documento Especial recebeu uma proposta financeira melhor do SBT, e mudou-se de casa. Coube à Manchete produzir um programa idêntico, e com temática ainda mais pesada (incluindo até mesmo cenas de sexo explícito). Nascia aí o Manchete Especial – Documento Verdade, que alternava como o programa mais assistido da emissora com o Cinema Nacional (atingiu foi 7%), exibindo clássicos da pornochanchada, semelhante ao que hoje em dia faz o Canal Brasil . A cópia do Documento Especial chegou a alcançar 11% de share. Compare os dois programas:


Em 1992, Clube da Criança
, sucesso do passado e que fora jogado brevemente para as manhãs, não figurava nem entre os cinco programas mais assistidos da emissora. Até mesmo o Milk Shake, apresentado por Angélica, já vinha com números muito abaixo do que já havia atingido anteriormente – variando entre 2 e 4%. As gravações agora ocorriam em São Paulo, prejudicando mais ainda a equipe de produção dos programas, que anteriormente eram feitos no Rio de Janeiro. Para complicar mais a situação da Manchete, o assédio da Globo para cima de Angélica crescia devido ao anúncio de extinção do Xou da Xuxa para 1993. O SBT foi outro que caiu em cima da loura, que ainda não havia renovado com a emissora carioca e, depois de muito esforço, conseguiu tirar Angélica da Manchete em 1993.

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ANGÉLICA NA ESTREIA DA “CASA DA ANGÉLICA” NO SBT

Ainda no campo dos programas infantis, o Cometa Alegria já havia mudado de cara em 1991. Antes um programa com informações, matérias, curiosidades e até aula de artes marciais para a gurizada, tornou-se uma mera sessão para exibir desenhos e tokusatsu. Patrick foi deslocado para o Clube da Criança como repórter mirim, e Cinthya tornou-se cantora antes de migrar para a TV Cultura, chegando a gravar uma faixa para o LP brasileiro de Kamen Rider Black. Com o Cometa Alegria sendo extinto em 1992, o Clube da Criança ocupou seu lugar nas manhãs – como já falado anteriormente. Em julho, a grade da Manchete muda novamente e Duda Little, ex-repórter mirim do Xou da Xuxa e participante do programa dos Trapalhões na Globo, assume o comando do Cometa, agora rebatizado de Dudalegria. O programa chegou a alcançar 2% de audiência neste período inicial, em que exibia apenas desenhos animados.

DUDA

Em 1993, a Manchete fechou um acordo com a empresa de Emerson Fittipaldi e garantiu a aquisição dos direitos de transmissão da Formula Indy. A estratégia foi benéfica para a emissora, com a transmissão das corridas geralmente sendo o ponto alto de audiência durante a semana- sempre cerca de 4 a 6%, números bem razoáveis para esportes na emissora. Foram exibidas também as provas da temporada de 1994, antes da categoria migrar para o SBT.

Em abril, depois de 4 meses de reprises, o Clube da Criança agora tem uma nova apresentadora: Mylla Christie foi convocada para o lugar de Angélica, que assinou com o SBT após uma quebra de contrato com a Manchete devido a emissora descumprir algumas cláusulas. Curiosamente, Angélica assinou com o SBT no mesmo dia em que a emissora voltou para as mãos do grupo Bloch, após uma disputa judicial com a IBF. Se quiser saber um pouco sobre os bastidores desta conturbada volta da Manchete para os Bloch, elenquei aqui alguns recortes de jornal da época.

Com a volta de Cybercop para o Clube, a audiência do programa aumentou e ele voltou a figurar entre os mais assistidos da emissora, chegando a 5%. Já em dezembro de 1993, com a volta de Kamen Rider Black à emissora, em um excelente horário (18h30min), mais um tokusatsu figurava entre os mais assistidos da casa. Chegando a alcançar 4% de audiência em abril de 1994, o seriado foi líder de audiência da emissora por duas semanas, repetindo o feito que Changeman e Jaspion haviam conseguido em 1989. Esta foi a última vez que um tokusatsu foi líder de audiência na Manchete.

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A Manchete preparava a estreia de O Marajá, novela baseada nas maracutaias de Fernando Collor de Mello e sua gangue em Brasília, quando, no dia da estreia, foi proibida pela Justiça de leva-la ao ar. Com isso, a emissora teve que correr para lançar outra novela, que teve cenas gravadas até mesmo dentro do prédio da Bloch no Rio de Janeiro para economia nos custos. Guerra sem Fim foi ao ar e alcançou números pífios, como 2% de share.

Em julho de 1994, o Clube da Criança mudou novamente de comando, passando de Mylla para a ex-miss Brasil Patrícia, a Pat Beijo. No programa, a volta de diversos desenhos da Hanna Barbera que estavam sendo exibidos no Cartoon Network na época. Além deles, Winspector e Patrine fizeram parte do programa, que chegou a dar 3% de share.

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PATBÊJO, PATBÊJO, PATBÊJO, PATBÊJO, PATBÊJO

O novo líder de audiência da Manchete por um bom tempo seria o anime Cavaleiros do Zodíaco, a partir do final de 1994. Gradualmente, os números da série foram crescendo, a ponto de em maio de 1995 atingir o pico de 7%, alcançando 269 mil lares ligados na Grande São Paulo. Por mais de um ano os Defensores de Athena figuraram no Top 5 da emissora, geralmente sendo o líder. Aliás, a programação infantil da Manchete em 1995 garantia bons números para a emissora, com Dudalegria, Winspector, Super Catch e o Clube do Seu Boneco aparecendo diversas vezes entre os programas mais assistidos da casa, com números entre 4% e 2% de share.

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CAVALEIROS: MAIS DE UM ANO SEGUIDO NA PRIMEIRA COLOCAÇÃO DA EMISSORA

A novela Tocaia Grande, o último grande feito de Adolpho Bloch antes de sua morte, não chegou a ser sucesso – variou entre 5% e 4% – mas em algumas semanas conseguiu ser o programa mais assistido da emissora.

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Vale a ressalva: a partir de junho de 1996, a Folha de São Paulo deixou de colocar os números de alcance de audiência, passando a descreve-los como PONTOS. A partir daqui, são considerados apenas números de pontos, e não mais percentual de share.

A novela sucessora, Xica da Silva, que conseguiu bons números, e pode-se dizer que foi um dos últimos grandes sucessos da Manchete. Na Grande São Paulo, o recorde de IBOPE de Xica da Silva, segundo a Folha de São Paulo, foi de 13 pontos de audiência. Liderou a audiência dos programas mais assistidos da Manchete por 12 semanas. Enquanto muitos pensam que Xica da Silva se trata do último programa de sucesso da emissora, os números dizem o contrário.

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A POLÊMICA CENA DE GALISTEU EM “XICA DA SILVA” EM 1996

O policialesco e ultrapopular Na Rota do Crime, apresentado pelo jornalista Marcos Hummel, atingiu números idênticos a Xica da Silva (13 pontos na Grande São Paulo). Mas foi líder de audiência da emissora por 56 semanas, de um período que abrange agosto de 1996 até novembro de 1998. Durante um bom tempo, alternava a sua liderança com Xica da Silva e, posteriormente, com a última novela completa e totalmente inédita que a Manchete exibiu, Mandacaru.

Destaque também para os japoneses, como Shurato, que nas suas semanas iniciais bateu a audiência dos Cavaleiros do Zodíaco (6% contra 5%), já em reprises. O anime foi um dos últimos programas a compor a grade da emissora no seu fim em 1999. Yu Yu Hakusho e Super Campeões foram outros a integrarem o Top 5 de programas mais assistidos da emissora em 1997, alcançando 4 pontos no IBOPE. Yu Yu Hakusho, na fase final da emissora, chegou a liderar a audiência da Manchete com 4 pontos em 1999, alternando com a última reprise de Pantanal, a tentativa desesperada da emissora de tapar um buraco aberto por Brida – a novela que não teve final.

Jiraiya e Maskman, jogados às pressas na programação final da emissora, também chegaram a figurar no Top 5, muito mais em função de quase não existir nenhum programa próprio na Manchete do que por ser realmente um sucesso. Variavam entre 1 e 2 pontos.

Podemos contar como o último líder de audiência dentro da programação da Manchete o querido Gustavo Kuerten. É isso mesmo. Guga foi um fenômeno praticamente nascido dentro da emissora – a única a transmitir a final de Roland Garros em 1997. A final do Super 9 (atual Master 1000) de Roma em 1999, com a vitória do brasileiro sobre o australiano Patrick Rafter, garantiu à emissora 3 pontos de audiência. Já na semana seguinte, ela tornou-se a TV!, o embrião que hoje é a RedeTV!.

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GUGA ERGUE A TAÇA DO SUPER 9 DE ROMA EM 1999. ÚLTIMA PARTIDA DE TÊNIS TRANSMITIDA PELA EMISSORA SOB O NOME DE “MANCHETE”

De uma ascensão meteórica com Pantanal ao triste fim com programas do Grupo Imagem & Teleshop (atual Polishop) e igrejas por todos os lados, a Manchete teve uma audiência bem diversificada, como foi conferido neste e no artigo anterior. Como líderes da emissora, tivemos as novelas (Dona Beija, Pantanal, Ana Raio & Zé Trovão, Xica da Silva), os jornalísticos (Documento Especial, Manchete Especial – Documento Verdade, Na Rota do Crime), programas infanto-juvenis (Milk Shake, Clube da Criança), japoneses (Jaspion, Changeman, Kamen Rider Black, Cavaleiros do Zodíaco, Yu Yu Hakusho), transmissões esportivas (Formula Indy, Tênis, Futebol), entre outros. Esta diversificação faz falta hoje em dia, em que os canais a cabo estão cada vez mais segmentados e a TV aberta agoniza. O que aconteceu  com a Manchete virou história. Ainda bem que sempre podemos recordar.

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