OS 20 ANOS DE BRIDA: A NOVELA SEM FINAL QUE ACABOU COM A MANCHETE (PARTE 1)

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O dia 23 de outubro de 1998 entrou para a história da teledramaturgia nacional. Um remendo foi mostrado como final de uma novela que prometia muito. Eloy de Carlo, voz padrão da Rede Manchete, narrou o desfecho de uma trama que ficou pela metade. A emissora exibiu cenas de flashback que não condiziam com as frases lidas pelo narrador. Uma greve impediu que a novela fosse gravada até o final. Assim, uma trama programada para 180 capítulos terminou com míseros 54, interrompida sem fazer sentido algum. Não adiantou acelerarem os trabalhos: ficaram faltando 3 capítulos para serem gravados para explicar o inexplicável. Foi uma verdadeira catástrofe para a Rede Manchete, que vivenciou um de seus períodos mais nefastos com esta trama envolta em um sem-fim de erros.

A seguir, vamos relembrar como foi a proposta de pegar um imenso sucesso editorial de Paulo Coelho, um dos autores mais lidos no mundo inteiro, e transformá-lo em uma novela que entrou para a história como um grande fiasco.


A GÊNESE DA CATÁSTROFE

Em outubro de 1997, no Jornal O Globo, houve um anúncio de que a novela substituta de Mandacaru, que já não conseguia segurar a audiência do sucesso Xica da Silva (1996), seria uma adaptação de Brida, terceiro livro lançado pelo escritor Paulo Coelho.

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A história foi vendida por uma bela grana, algo que já faltava à Manchete naquela época. O acordo selado previa que Paulo Coelho não faria nenhuma alteração na história adaptada para a televisão. Era algo imprescindível já que o diretor escalado para a produção era o veterano Walter Avancini, que havia comandado Xica da Silva e Mandacaru. O diretor era conhecido por inserir um voluptuoso conteúdo erótico em suas produções. Além disso, estava tentando implantar também teor exotérico às produções da casa, como era possível conferir no programa Mistério, apresentado pelo próprio Avancini.

Para escrever a adaptação de Brida para a televisão, o diretor escolheu inicialmente a escritora Leila Miccolis. Tinha intenção de convidar Drica Moraes para viver a protagonista da trama. Mas os planos de colocar a atriz para ser a protagonista logo caíram por terra. Após viver a vilã Violante em Xica da Silva, Drica havia retornado à Rede Globo, onde fez participações no humorístico Comédia da Vida Privada em 1997. Já em 1998, ela fez sua primeira protagonista na emissora, na novela Era uma Vez (18h).

Com a recusa de Drica Moraes, Avancini precisou escalar uma nova protagonista. A escolhida foi a bela Christine Fernandes. O convite foi aceito apenas em maio de 1998, às vésperas do início da produção, que deveria estrear apenas após a Copa do Mundo da França. Além de Christine, outro nome já estava fechado para a produção, o do autor Jayme Camargo, que ficou responsável pela adaptação do livro para a teledramaturgia no lugar de Leila Miccolis. Sylvia Bandeira era a única atriz, além de Christine confirmada para a novela.

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A história da novela não se passaria na Irlanda de 1983, como era no livro. Teve de ser adaptada para o Rio de Janeiro do final dos anos 1990. Outro problema: a quantidade de personagens, já que no livro só haviam quatro. Para viver o Mago na novela, Avancini pensou em escalar atores argentinos, já que os hermanos tem a aparência que casaria com a proposta estética do personagem, mas essa ideia logo foi ignorada. Fábio Jr. também foi sondado, mas fechou com a Rede Globo para participar da novela Corpo Dourado (19h). Referente aos cenários urbanos, era ideia era utilizar como locações alguns lugares místicos de Brasília, interior de Minas Gerais e Punta del Este, no Uruguai.

Em junho de 1998, saiu um novo anúncio para o elenco de Brida. Leonardo Vieira, galã da Rede Globo, foi escalado pelo diretor Avancini para viver Lorens, namorado da protagonista. Juntamente com mais 31 pessoas, Leonardo ia para reuniões de preparação de elenco para ter aulas de expressão corporal com o diretor. Esses encontros iniciavam às 10h da manhã e iam até o final da tarde, todos os dias. Na novela, a história de Lorens seria um pouco diferente da contada no livro: Brida e ele se conhecem na infância, mas perdem contato e só se reencontram depois de adultos, graças à mediunidade da futura Bruxa. Embora se apaixonem, Brida vive o dilema de encontrar sua verdadeira cara-metade, e põe em xeque os seus sentimentos por Lorens.

A jornada de reuniões de elenco cansou boa parte dos atores, que iniciaram uma debandada mesmo antes do início das gravações. Sylvia Bandeira, a primeira anunciada junto de Christine Fernandes, além dos atores Ana Maria Nascimento Silva e Maurício Branco, saíram da trama por não conseguirem se dedicar totalmente às “aulas” de Avancini no Complexo da Água Grande, localização da cidade cenográfica da Rede Manchete naquela época. Maurício saiu para fazer um papel coadjuvante na série Labirinto, na Rede Globo. Já Sylvia precisou sair para cuidar do pai que havia passado por uma cirurgia. Ana Maria saiu para se dedicar à captação de recursos para o filme “O Viajante”. Mesmo assim, as aulas, em ritmo desgastante e tidas como “inúteis” para atores com tanta experiência, foram um dos pontos chave do abandono. Avancini tentava se defender alegando que já fazia isso há mais de 30 anos, e que algumas das pessoas que trabalhavam com ele consideravam esse processo positivo, conforme noticiava o jornal O Globo.

OS PREPARATIVOS

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Nas últimas semanas de junho de 1998, às vésperas do início das gravações, a atração da Manchete sofreu um novo revés. Christine Fernandes decidiu não aceitar o papel de protagonista pois não concordava com as cenas de nudez gratuitas que estavam nos primeiros capítulos. A atriz brigou com Walter Avancini e abandonou a trama. O diretor tinha um novo incêndio para apagar, e desta vez de maneira ainda mais veloz.

Carolina Kasting, escalada para viver a personagem Inês, uma moça com relação incestuosa com seu pai, foi promovida à protagonista, pegando a todos de surpresa. Com 22 anos na época, a atriz contou ao jornal O Globo que já intuía essa mudança, pois tinha sonhado com uma cena da protagonista, mesmo sem saber do roteiro anteriormente. A experiência anterior de Carolina era restrita à participações na novela Anjo de Mim (1996) e no sucesso Hilda Furacão (1998), ambos da Rede Globo.

Avancini convidou a atriz Guilhermina Guinle  para ser uma das antagonistas de Brida. Guilhermina já havia recusado participar da novela Estrela de Fogo (1998), da Rede Record, e topou o trabalho com Avancini. A atriz tinha gravado O Direito de Nascer, do SBT, no ano anterior, mas a novela havia sido engavetada . Vale lembrar que o SBT exibiu a novela apenas em 2001!

Rubens de Falco ficou com o papel de vilão máximo da trama, o bruxo Vargas. Conhecido por grandes vilões na história da teledramaturgia, Rubens ficou marcado pelo inesquecível Leôncio, de Escrava Isaura (1977), da Rede Globo. Também havia feito papeis similares em anos posteriores, como o Barão Ferreira, de Sinhá Moça (1986), e Egisto, político conservador da novela Os Ossos do Barão (1997), no SBT. Embora tenha sido escalado para interpretar um bruxo, Rubens declarou à época para o jornal O Globo que não acreditava em esoterismo, e tinha aulas sobre o tema apenas para pegar o gestual de seu personagem. Outro fator serviu de estímulo a Rubens para aceitar o personagem: as primeiras cenas da novela seriam gravadas na Irlanda, revivendo cenas do livro de Paulo Coelho.

Com investimentos em viagens internacionais e belos cenários em castelos da Irlanda, a direção da novela apostava forte no projeto. Havia a ambição de tornar a novela um produto de exportação de sucesso, baseado nos poderosos números de Brida no exterior. A obra de Paulo Coelho havia sido publicado em mais de 40 países até aquele momento. A Manchete possuia know-how no mercado internacional, já que seu sucesso mais recente, a novela Xica da Silva (1996), havia sido exportada para Portugal, e passou em diversos países do continente africano.


INVESTINDO NO CAOS

Em 23 de junho de 1998, as gravações iniciaram no Rio de Janeiro. Ao custo previsto de R$ 45 mil por episódio, havia a pretensão de gravarem 180, um número bem inferior aos 259 capítulos de Mandacaru. Com exibição de segunda à sexta-feira (21h40), o projeto Brida era muito ousado. A situação financeira da Manchete não colaborava. Desde o final de 1997, a emissora vinha perdendo, gradativamente, repetidoras e afiliadas por todo o Brasil, graças à franca ascensão da Rede Record. Com alto investimento na Copa do Mundo da França em 1998, a Manchete apostava suas últimas cartas em uma grande virada. Embora muitos profissionais gabaritados para a empreitada estivessem na emissora, como Januário de Oliveira, Cledi de Oliveira, Milton Neves, sob o comando de Paulo Stein e Alberto Leo, os números pífios de audiência durante a Copa e o baixíssimo retorno financeiro comprometeram a já abalada situação da emissora. Desta forma, Brida foi afetada diretamente pelo caos instaurado na emissora dos Bloch.

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Os contratos da novela exigiram muitas permutas para a execução do projeto. Walter Avancini jogava com as armas que tinha à sua disposição. No Rio de Janeiro, as primeiras cenas ocorreram na estrada da Gávea Pequena, no Alto da Boa Vista. O esmero do diretor era tanto que ele se comprometeu de cuidar pessoalmente de todos os episódios da trama até a estreia. Apostando forte na presença de cena de Carolina Kasting, a equipe de produção partiria em 1º de agosto de 1998 rumo à Irlanda, para desenvolver a parte mística da trama, contando o passado da bruxa Brida. Com a alocação de Carolina como Brida, o papel de Inês, anteriormente reservado para a atriz, ficou com Manuela Dias, que quase 20 anos depois se notabilizou como autora de sucessos como Ligações Perigosas e Justiça (2017), ambos na Rede Globo.

Mariano, o mago que mexe com a paixão de Brida por Lorens, seria interpretado por Augusto Xavier, apresentador do Jornal da Manchete. Foi graças a Jacqueline Kapeller, na época superintendente do grupo Bloch, que o convite a Augusto foi feito. Além de jornalista, Augusto Xavier é formado em astronomia e músico. Durante uma apresentação musical de Augusto ao lado do ator Sergio Abreu, também na trama, que Jacqueline teve a ideia de pedir a Avancini para convidar o apresentador. A mistura entre jornalismo e teledramaturgia não é novidade, mas geralmente o caminho é o inverso: atrizes como Sandra Anneberg e Cynthia Benini assumiriam, anos depois, lugares de destaque no noticiário como apresentadoras.

Curiosamente, para que todo o processo ocorresse de forma orgânica e em harmonia, Walter Avancini se propôs a colocar um lado “doce e afetivo” na sua direção, conforme relatou à Folha de S.Paulo em 28 de junho daquele ano. Aparentemente, não foi na primeira tentativa que deu certo. Como era dia de jogo do Brasil na Copa (derrota para a Noruega, por 2×1), os profissionais ficaram em polvorosa para acabar logo os trabalhos e assistir à partida. Avancini ficou possuído e berrou: “O que está acontecendo?  Esqueceram quem está aqui?”, para silêncio geral após a carraspana.

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Com uma meta modesta para o IBOPE, e já sabendo da realidade da emissora, Avancini declarou à Folha de S. Paulo que se a novela atingisse 10 pontos seria considerada um tremendo sucesso. Como a trama de Brida seria urbana e nos dias atuais (1998), muitos dos cenários das tramas de época, que vinham sendo reaproveitados desde Tocaia Grande (1995), não poderiam ser utilizados desta vez. Com escassos recursos disponíveis, Avancini declarou que não conseguiu propor uma estética condizente com o projeto. Teve que apostar em um visual mais cotidiano para representar a alta roda do jet-set carioca, prejudicando um pouco o aspecto luxuoso desejado para a trama.

Diferente dos trabalhos anteriores de Avancini, a proposta da novela era mostrar mais o lado feminino para o público, atraindo justamente as mulheres para assistirem à trama. Tradicionalmente, a Manchete tinha a prática de exibir diversas cenas de nudez e violência em suas novelas, para atrair também o público masculino. Essa corrente, iniciada ainda nos anos 1980 com Dona Beija (1986) e popularizada por Pantanal (1990), ganhou novo fôlego nos anos 1990. Presente desde a novela Tocaia Grande (1995), foi aprimorada em Xica da Silva (1996) e em Mandacaru (1997). Com Brida, Avancini propunha uma ruptura nesse contexto. Mas não foi exatamente o que aconteceu.

[CONTINUA NO PRÓXIMO TEXTO]

Um comentário

  1. Essa foi uma fase triste para a Manchete. Na verdade, a emissora dos Bloch vinha perdendo afiliadas já nos anos anteriores. Na crise de 1992/93, a Manchete perdeu duas afiliadas para a Band – as TVs RBA, de Belém(PA) e Barriga Verde, de Florianópolis(SC). Em 1995, a Manchete perdeu seu fundador Adolpho Bloch, falecido em 19 de novembro daquele ano, e mais duas afiliadas meses antes – as TVs Aratu, de Salvador(BA), e Tambaú, de João Pessoa(PB), que foram para a CNT e para o SBT, nesta ordem.

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