OS 20 ANOS DE BRIDA: A NOVELA SEM FINAL QUE ACABOU COM A MANCHETE (PARTE 2)

Para ler a PRIMEIRA PARTE, clique aqui

AS GRAVAÇÕES NA IRLANDA

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As cenas gravadas em um castelo na Irlanda mostrariam Brida no ano de 1300, com seu nome original, Loni. A heroína salva suas quatro amigas bruxas de morrerem queimadas em uma fogueira. Condenadas pelo bruxo Vargas, a morte das moças serviria para que ele aumentasse seus poderes.

Para a realização desta gravação, que teve início em 3 de agosto de 1998, uma equipe de 18 pessoas embarcou para Dublin. O castelo medieval de Meathi, utilizado como cenário, é uma fortaleza que foi construída em 1220.

Um voo de carga levou câmeras, cabos, figurinos e uma porção perucas para a Europa. As joias utilizadas pelos bruxos ficaram a cargo de Antônio Bernardo, e os figurinos levavam assinatura de Oswaldo Arcas. As gravações ocorreram muito perto da estreia, agendada para a semana seguinte. A corda estava esticada para a produção desde a gênese do projeto.

 

A ESTREIA

 

Estreando no dia 11 de agosto de 1998, uma terça-feira, às 21h40, Brida teve dois horários na emissora. O horário alternativo das 19h foi uma nova aposta para angariar público que pudesse estar insatisfeito com a novela Meu Bem Querer, da Rede Globo, exibida no mesmo horário. A abertura da novela, com símbolos da alquimia aparecendo na tela, tinha como tema a música Gita, clássico de Raul Seixas e Paulo Coelho, interpretada na voz de Rosa Marya Colin.

Ao lado dos protagonistas da trama, o elenco tinha grandes nomes da teledramaturgia, como Othon Bastos, Bete Mendes e Edney Giovenazzi. Com a proposta de “abordar a necessidade da mulher de transcendência”, como declarou Avancini ao Jornal O Globo, a novela precisava romper o padrão estabelecido das novelas anteriores da emissora.

A estreia não agradou muito ao público – e nem ao diretor. O autor Jayme Camargo, responsável pela adaptação, não conseguiu captar a essência feminina e transportá-la ao texto – uma das exigências de Avancini. Com apenas nove capítulos exibidos, o diretor declarou à Folha de S.Paulo: “O Jayme estava dando um olhar muito masculino à trama. Estava explorando muito as ações externas dos personagens. Quero um história mais intimista, mais feminina. Não estava gostando desde o início”.

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A partir do 14º episódio da trama, novas autoras foram convocadas para sanar esse problema:  Sonia Mota, filha de Nelson Rodrigues, e Angelica Lopes, que já tinha trabalhado com Avancini em Tocaia Grande (1995). Com a substituição, o diretor tentava conter as já famigeradas cenas de sexo em seus trabalhos. Uma das cenas previstas remetia a esse peso que Avancini tentava frear: Fradique (Othon Basthos) apareceria na cama com três mulheres ao mesmo tempo: sua namorada Isabel (Patrícia Novaes), uma prostituta e a filha de Isabel, Lílian (Roberta Porto), moça pela qual ele teria uma fixação.

Além da temática ser suavizada, o misticismo seria desacelerado. A entrada do mago Mariano, personagem de Augusto Xavier, que estava programa para o capítulo 10 foi adiada. Augusto havia, inclusive, gravado uma cena de nu frontal, ao sair de uma piscina. Com a alteração dos rumos da novela, a cena não foi utilizada.

 

MAIS MUDANÇAS PELO CAMINHO

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Mesmo com as mudanças iniciais, a novela não decolava. Para piorar, era exibida em plena época de campanha eleitoral na TV, empurrando a novela para o incômodo horário das 22h30. Se antes previa um sucesso de 10 pontos de audiência, Avancini amargava apenas 2 pontos, equivalentes a 160 mil telespectadores na Grande São Paulo. Talvez o maior erro tenha sido acreditar que o produto faria sucesso apenas por ter a grife de Paulo Coelho, que havia vendido mais de 8 milhões de exemplares de Brida em todo o mundo, sendo 800 mil apenas no Brasil.

Um dos novos rumos de Avancini para a trama foi convocar o galã Victor Wagner, astro de três novelas consecutivas na Manchete. Assim, Victor conseguiu engatar quatro novelas em sequência, um verdadeiro recorde. Avancini também chamou figurinhas carimbadas de novelas da emissora, como Tânia Alves, Anselmo Vasconcelos e Alexia Deschamps. Para dar um alívio cômico à trama, chamou Rosane Goffman e Fafy Siqueira. Incoerentemente, Goffman fez uma personagem que sofria violência do marido, situação que não tinha nada de comicidade. Aos poucos a história se tornou uma colcha de retalhos, sem muito nexo. “Não é exatamente essa a solução que eu gostaria de dar para o problema. Mas é esse o caminho que encontrei dentro das atuais circunstâncias e com os recursos que tenho”, desabafava o diretor à Folha de S.Paulo.

A partir do dia 14 de setembro, Brida perdeu o horário das 19h, devido à impossibilidade de levar as cenas mais pesadas naquela faixa. A novela passou a ser exibida somente às 22h30, sendo um duro golpe na sua já escassa audiência. Mesmo assim, algumas das mudanças surtiram efeito. A novela patinava em 3 pontos de audiência, mas em determinados capítulos conseguiu picos de 6. Como concorria com a faixa de shows de outras emissoras, principalmente do SBT e da Globo, era um fato a ser comemorado.

Avancini continuava batendo na tecla de que, após o horário eleitoral, as coisas iriam melhorar. O investimento da emissora continuava baixo, e o diretor tinha que se adaptar como podia à crise. Se a ideia era atrair o olhar feminino para a trama, provocou sua audiência com tórridas cenas de sexo entre Edmilson (Victor Wagner) com Mercedes (Tânia Alves), dona da Casa Verde, um dos points esotéricos – e eróticos – da novela.

Além da temática, ocorreram também mudanças estéticas. O figurino da protagonista mudou. Deixou de usar o visual casual, de camiseta e jeans, e passou a utilizar vestidos. Casava com a proposta da descoberta de seus poderes. Em declaração ao jornal O Globo, Carolina Kasting aprovava as mudanças, e sabia que outras estariam por vir para que a novela chegasse ao caminho certo.


COLEÇÃO DE EQUÍVOCOS

Uma novela que começou cheia de problemas, que se agravaram ao longo de toda a história devido à forte crise que estava instaurada na Manchete, tinha futuro incerto. Sem dinheiro para investir, sem patrocínios devido à baixa audiência, o barco estava prestes a afundar. A decisão drástica para que a novela terminasse foi adiantar o seu final para outubro daquele ano, com pouco mais de 2 meses de exibição.

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O otimismo de Carolina Kasting tinha se transformado em aflição. Em declaração à VEJA, a atriz temia que a novela terminasse sem final. A equipe de gravação entrou em greve juntamente com vários setores da Rede Manchete, devido aos constantes atrasos de salários. Com toda a parte técnica da novela paralisada, houve uma recusa geral para gravar os três capítulos finais que terminariam a trama, ainda que de forma totalmente afoita. O atraso de mais de um mês e meio nos salários de toda a turma demonstrava que eles fizeram praticamente toda a novela sem receber. Chegou ao ponto de não retorno e o estrago foi evidente.

Houve uma imensa frustração de todos os envolvidos com o trabalho. O jornal O Globo noticiou que Augusto Xavier já havia decorado boa parte das suas cenas de maior destaque da trama, que acabaram nem sendo gravadas. Já Leonardo Vieira, que estava afastado das novelas desde Quatro por Quatro (1994), da Rede Globo, comemorava o retorno às telas, mas foi outro que acabou evidentemente frustrado quanto ao resultado final. Em declarações ao Globo, disse que a novela havia desestruturado sua vida profissional e financeira, e que todo o elenco já tinha entrado na justiça. Além disso, buscava a quebra de contrato com a emissora, que ia até maio de 1999, para procurar outro local para trabalhar. Vieira engatou logo outro trabalho, de volta à Globo, na quinta temporada de Malhação.

Resignada, a protagonista Carolina Kasting disse ao Globo não se arrepender de ter optado pela novela, dizendo que este trabalho iria lhe abrir muitas portas, além de ter aprendido muito com Avancini. No ano seguinte, Carolina retornou à Rede Globo, na novela Terra Nostra (1999), um grande sucesso de Benedito Ruy Barbosa.


A NOVELA QUE NÃO ACABOU

Ao final do capítulo 54, entrou no ar um resumo de cenas com o desfecho de cada personagem. A intenção era que a narração final fosse feita pelo próprio diretor, Walter Avancini, conforme noticiou o Globo em 23 de outubro de 1998. Mas ficou para Eloy de Carlo, a voz padrão da Rede Manchete, a tarefa de encerrar a novela que nunca acabou.

Um “final” surreal para uma trama que foi concebida como a salvação da emissora e tornou-se a última pá de cal na iminente cova que a Manchete vinha cavando desde o final de 1997. Um desfecho melancólico para uma história pobre, malfeita e envolta em grandes equívocos. Foi o último projeto da Bloch Som & Imagem, e provavelmente jamais será vista novamente na tv.

 

RELATO PESSOAL SOBRE A NOVELA

Devo ter sido um dos poucos brasileiros que deu uma olhada na novela. Eu estava sem a Manchete em casa desde 1 de dezembro de 1997, quando a TV Pampa terminou seu contrato com a emissora dos Bloch. Para assistir no RS, apenas com antena parabólica. Minha família só adquiriu tal artefato na última semana de agosto de 1998, mais precisamente no dia 29, um sábado. Durante a Copa do Mundo, assisti às chamadas da novela na casa dos meus avós. Fiquei curioso com a trama, já que a novela iria se passar na atualidade, coisa que a Manchete não fazia desde 1993, quando produziu Guerra Sem Fim a toque de caixa devido ao cancelamento forçado de O Marajá.

Na segunda-feira, 31 de agosto, assisti a novela no horário das 19h, e achei uma bela merda. Também estava puto devido ao fato do horário eleitoral ferrar a programação da Manchete e tirar Yu Yu Hakusho do ar. Mas estava curioso com a novela, mesmo ela sendo horrível.

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Assisti vários episódios em setembro, e notava que o elenco de produções anteriores se repetia. Era um claro sinal de que a crise na emissora estava grande. Como na época eu não tinha acesso à internet, não era fácil arrumar informações sobre a Manchete, ainda mais porque não havia mais sinal em tv aberta no RS. Até que um dia minha mãe chegou em casa com uma revista AnaMaria, e lá constava que a novela iria encerrar de maneira abrupta, sendo substituída por Pantanal.

Isso foi uma semana antes do final. Me programei para assistir esse desfecho lamentável, não acreditando que iriam realmente acabar com a novela no meio, e ainda mais sem final. Mas fizeram isso, e fui testemunha ocular. Esses momentos insólitos da televisão me atraem bastante, a ponto de eu ter escrito dois artigos sobre essa novela bizarra, como podem ter percebido.

 

RESUMOS (O GLOBO E FOLHA DE S.PAULO)

Para quem não pode acompanhar a novela, e há poucos vídeos disponíveis na Internet, compilei todos os resumos dos episódios que eram publicados semanalmente em O Globo e na Folha de S.Paulo. Evidentemente não narram a história da maneira como ocorreu, visto que as adaptações e mudanças de última hora na trama. Mas fica como curiosidade e objeto de estudo para quem por ventura se interessar.

Clique aqui para ler os resumos. 

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Um comentário

  1. Mais uma grande matéria! Show de bola, Matheus! Confesso que vi pouca coisa de Brida. Não me interessei na época e acabava assistindo outros programas no horário. Na época não acreditei como uma novela poderia acabar assim sem mais nem menos. Lembro que tinha gente que comentava sobre isso no colégio. Hoje em dia tenho curiosidade em saber como foram os capítulo e tal. Brida se tornou uma raridade e não vale o investimento para TV, uma vez cancelada. Foi um projeto audacioso e caríssimo para as condições precárias da Manchete naquele tempo e ficaram piores por causa da novela. Acho que se a emissora tivesse optado por reprisar Pantanal logo após Mandacaru, o problema financeiro não seria tão agravante. Visto que a Manchete teria um tempo considerável para a Manchete se planejar melhor financeiramente, cuidar bem do fluxo de caixa e reinventar sua programação e seus núcleos para um futuro próximo e tentar algum faturamento com a reprise de seu maior sucesso. Mas a autossuficiência era um defeito dos Bloch e deu no que deu. Levou a Manchete à venda/falência no ano seguinte. A TV do ano 2000 jamais viu esse ano chegar.

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